Por Que Escutar Antes De Falar?

Escutar é estratégia, não pesquisa

Existe uma etapa que separa as campanhas que se conectam com a população das que falam para dentro da própria bolha e está presente em todas as campanhas que funcionaram: a escuta.

Não estamos falando de pesquisa eleitoral tradicional — aquela que mede intenção de voto e aprova ou reprova uma proposta. Estamos falando de algo mais fundamental: entender como as pessoas falam sobre os problemas que sua candidatura quer resolver.

  • Qual é a linguagem que usam?
  • Quais emoções estão por trás?
  • O que as mantém acordadas à noite?
  • O que elas realmente esperam de uma candidatura?

Sem essa base, qualquer mensagem — por mais bem produzida que seja — corre o risco de ser mais um ruído em meio à avalanche de conteúdos que vivemos.

Casos que ensinam

O Morena — partido de Claudia Sheinbaum — realizou grupos focais com a população antes de definir os valores centrais da campanha presidencial. A escolha por honestidade, preparação e capacidade como pilares narrativos não veio de intuição da equipe. Veio de escuta sistemática e presença nos territórios. Elas foram atrás de saber o que as eleitoras buscavam — e construíram a mensagem a partir daí.

Do outro lado do espectro político, Bukele aplicou o mesmo princípio. Antes de construir qualquer narrativa, monitorou como as pessoas falavam dos problemas em El Salvador. Só depois estruturou as mensagens que fariam essa narrativa circular. O resultado foi uma comunicação que soava familiar para quem ouvia — porque foi construída com as palavras de quem ouvia.

E ainda que de um ponto de vista completamente diferente em valores, as páginas de entretenimento e fofoca que dominam o alcance digital no Brasil operam pela mesma lógica: publicam com frequência e precisão porque se conectam com emoções em uma linguagem familiar. 

Inteligência permanente

Uma das armadilhas mais comuns no campo progressista é tratar a escuta como uma etapa de aquecimento — algo que se faz antes de começar de verdade. Essa visão é equivocada e cara.

A escuta é contínua. Ela acontece antes de definir a mensagem, mas também durante a campanha, quando o campo antidemocrático lança ataques e fake news que precisam ser antecipados. O Morena mantinha um mapa de respostas à direita, alimentado por comunicação semanal das narrativas que circulavam sobre seus temas prioritários com os comitês regionais. Não era reativo — era preditivo.

Isso muda a natureza da escuta: ela deixa de ser diagnóstico inicial e passa a ser inteligência permanente de campanha.

Por que campanhas que não escutam falam para dentro da bolha

Quando uma equipe de campanha define sua mensagem a partir do que considera importante — sem verificar se isso ressoa com quem ainda não está convencido —, ela está, na prática, produzindo conteúdo para quem já a apoia.

Esse erro tem um custo duplo. Primeiro, desperdiça recursos em comunicação que não converte. Segundo, e mais grave, consolida a impressão de que a política progressista não fala com as pessoas — fala sobre elas próprias.

A saída não é abandonar as convicções. É aprender a traduzi-las na linguagem de quem você quer alcançar. E para isso, é preciso primeiro ouvir como essas pessoas falam.

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