Escuta não exige estrutura sofisticada
Uma das razões pelas quais a escuta estratégica fica para depois — ou nunca acontece — é a ideia de que ela exige recursos que a maioria das campanhas não tem: instituto de pesquisa, orçamento para grupos focais profissionais, ferramentas caras de monitoramento digital.
Essa ideia é equivocada. A escuta eficaz pode ser feita com o que toda campanha já tem: pessoas, territórios e alguma organização. O que muda é a intenção — transformar conversas que já acontecem em insumo estratégico.
Há três camadas de escuta que toda campanha pode praticar, com diferentes níveis de estrutura e recursos.
Escuta presencial: o que o território ensina
A camada mais fundamental é a que acontece no chão. Conversas de bairro, visitas a associações, participação em reuniões de comunidade, presença em feiras, igrejas, sindicatos. Não como ato de campanha — como ato de escuta genuína.
A diferença é sutil, mas decisiva. Quando alguém percebe que está sendo ouvida — e não apenas abordada para ganhar voto —, fala de forma diferente. Fala sobre o que realmente importa.
Para que essa escuta vire insumo, ela precisa ser registrada. Um roteiro simples de três perguntas já basta, por exemplo: qual é o maior problema que você vê aqui no bairro? O que alguém que não mora aqui tem dificuldade de entender sobre isso? O que você esperaria de uma candidata que quisesse resolver isso? As respostas, anotadas logo após cada conversa, constroem um mapa de linguagem e emoção que nenhum dado quantitativo substitui.
Escuta digital: monitoramento sem ferramentas caras
A segunda camada é o monitoramento de conversas públicas em ambientes digitais. Não é preciso pagar por plataformas sofisticadas para começar. O essencial está acessível: comentários em páginas locais e regionais no Facebook e Instagram, grupos públicos de WhatsApp, seções de comentários em portais de notícia da região, vídeos de influenciadoras locais sobre temas cotidianos.
O que buscar nesses espaços não é menção à candidatura — é a linguagem que as pessoas usam para falar dos problemas que a campanha quer endereçar.
- Como falam sobre o transporte?
- Sobre a saúde pública?
- Sobre o custo de vida?
- Quais palavras repetem?
- Quais emoções aparecem com mais frequência — raiva, resignação, esperança?
Dedicar um tempo a esse monitoramento, com registro organizado, produz inteligência real sobre o campo de disputa
Escuta estruturada: o grupo focal simplificado
A terceira camada é a escuta organizada em grupo — uma versão acessível do grupo focal profissional. Seis a dez pessoas que representem o público que a campanha quer alcançar, reunidas por uma a duas horas para conversar sobre temas específicos. Não para apresentar propostas — para ouvir como elas falam sobre os problemas.
O facilitador não é uma pesquisadora profissional: pode ser alguém da equipe treinada para fazer perguntas abertas e resistir à tentação de explicar ou defender posições. O objetivo não é convencer — é entender.
Esses encontros podem acontecer em casas, associações, centros comunitários. O que importa é o registro — em áudio, se as participantes permitirem, ou em anotações detalhadas logo após o encontro.
Como integrar as três camadas
A campanha de Sheinbaum não escolheu entre escuta presencial, digital e estruturada. Integrou as três em um sistema contínuo. Comitês territoriais viviam os bairros e ouviam as pessoas e reportavam semanalmente, além de receber direções e tarefas da comunicação central. Realizaram grupos focais e testavam mensagens antes de lançá-las. O monitoramento digital alimentava o mapa de respostas às críticas da direita e a percepção das pessoas.
O resultado não foi só uma mensagem mais afinada — foi uma campanha capaz de antecipar ataques, ajustar tom e manter disciplina narrativa ao longo de meses, conectada com as pessoas.
Organizar para não perder
Escuta sem registro é conversa esquecida. Para que o que foi ouvido vire insumo estratégico, precisa ser guardado de forma que possa ser acessado, comparado e sintetizado.
Não é preciso sistema sofisticado. Uma planilha simples com data, ambiente, público, tema, linguagem usada e emoção percebida já cria um acervo consultável. Com o tempo, padrões aparecem — e são esses padrões que vão orientar a construção da mensagem.