Im.pulsa

Outubro 19, 2022. Por Im.pulsa

Política e cuidado: por que precisamos falar sobre cuidados na política?

Impactos do cuidado no acesso das mulheres à política e ao mercado de trabalho

Por Priscila Sanches Nery Oliveira

Estamos prestes a vivenciar o resultado histórico de uma eleição presidencial marcada pela polarização política. Esse termo refere-se à tendência de divisão política entre dois lados, que dificilmente dialogam. Desde a redemocratização do Brasil, em 1985, não se via um cenário político marcado por tanto ódio e tanta tensão. Nas redes sociais, os ataques são massivos, as fake news se propagam em velocidade absurda, os ânimos se acirram e os debates são acalorados. Isso significa que estamos expostas a um constante estresse, que ultrapassa os veículos de comunicação e estão presentes em nosso dia a dia. 

Essa tendência, contudo, não foi observada somente no Brasil e as últimas eleições presidenciais nos E.U.A. mostraram isso. A polarização entre Biden e Trump foi tão significativa, que foram feitas pesquisas sobre como esse estresse impactou a saúde mental dos eleitores. Devido aos resultados, psiquiatras americanos criaram um termo para descrever os sintomas de irritabilidade, tensão, ansiedade e tristeza que as pessoas desenvolveram durante o período: transtorno de estresse eleitoral. 

Soma-se à polarização o fato de que as mulheres não se percebem representadas na esfera política. As eleitoras aptas ao exercício do voto somam 52,49% do eleitorado brasileiro, ou seja, a maioria dos votantes. Entretanto, o Brasil ocupa o 145º lugar – em um ranking de 187 países – no que se refere à representação feminina na política. Chegam a ocupar somente 16% nas Câmaras de Vereadores e 12,1% nas Prefeituras, por exemplo. Sem essa representação, projetos de leis, emendas e políticas públicas voltadas para as mulheres tornam-se difíceis e escassas.

É nesse cenário que a dimensão do cuidado atravessa a política. O conceito de cuidado é definido como ação de cuidar, de conservar, de apoiar e tomar conta. Esse cuidado implica em uma rede de ajuda entre as mulheres para promover seu bem-estar físico e mental. E, além do cuidado como estratégia de união entre as mulheres, é preciso, também, falar sobre o autocuidado: a noção de que cada uma de nós é responsável pelo seu próprio bem-estar

Como o machismo estrutural prejudica a nossa trajetória

Porém, a dimensão do cuidado para as mulheres esbarra em uma questão sociocultural bastante presente: o cuidado do outro. É impossível falar de cuidado sem mencionar a socialização feminina. Para a Sociologia, o processo de socialização se define como sendo a assimilação que um determinado indivíduo faz de hábitos, características comportamentais e culturais do grupo social no qual está inserido. Sendo assim, a socialização feminina diz sobre os comportamentos que introduzimos por meio da cultura e sobre o papel de gênero que nos é imposto desde que nascemos. 

Mulheres são definidas como seres passivos, submissos, dóceis, frágeis, abnegados, subservientes e etc. Em última instância, a qualidade de cuidadora é uma das grandes virtudes “intrinsecamente” femininas. Na verdade, somos ensinadas a cuidar de todos à nossa volta. As brincadeiras consideradas para meninas vão desde a boneca (que nos ensina a cuidar e maternar) até o fogãozinho de mentira (que nos ensina a cozinhar para os outros). Enquanto os meninos voltam-se para si mesmos, desde a infância, brincando com carrinhos de diversas profissões (bombeiro ou policial), além de priorizar super-heróis, que exaltam as noções de virilidade e de poder masculino. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa construção social é tão real que as chamadas “profissões do cuidado”, como a Enfermagem e a própria Psicologia, são majoritariamente femininas. Na Enfermagem, elas representam 85% das trabalhadoras; na Psicologia, são 80% das profissionais. Já no Serviço Social, elas representam mais de 90% das pessoas formadas. 

Para além da profissão, esse cuidado do outro não costuma gerar gratidão e relacionamentos recíprocos. Pelo contrário, são mulheres sobrecarregadas e adoecidas em múltiplas funções. Uma prova disso é a pesquisa, realizada pelas universidades de Stanford e de Utah, nos E.U.A., que revelou que as mulheres têm seis vezes mais chances de serem abandonadas pelos seus parceiros quando ficam doentes do que os homens têm de serem deixados pelas suas companheiras. O índice de divórcio, quando a mulher adoece, também surpreendeu, ficando na casa dos 20%. Em contrapartida, somente 3% dos casamentos eram desfeitos quando os maridos adoeciam.

Em minha experiência clínica no atendimento de mulheres – de diversos estados e até de brasileiras residentes no exterior –, a dedicação ao cuidado dos outros aparece frequentemente. Mulheres que abdicaram da própria vida para cuidar dos pais idosos, mesmo tendo irmãos que poderiam dividir essa responsabilidade; mulheres casadas que deixaram de lado seus sonhos, para concretizar a ambição profissional de seus maridos; mães solos sobrecarregadas no cuidado dos seus filhos… Os exemplos são os mais diversos e escancaram a realidade do cuidado feminino como uma dimensão voltada sempre para o outro. 

A mulher como protagonista

Nesse ponto, é essencial refletir que existe um projeto patriarcal bastante conveniente, quando somos ensinadas a esquecermos de nós. Mulheres sobrecarregadas em triplas jornadas, financeiramente dependentes e que priorizam os outros são mulheres que não conseguirão realizar suas metas profissionais, de carreiras políticas ou mesmo de ambições financeiras. São mulheres ocupadas demais para se articular, para se dedicar ao seu autocuidado, para realizar seus próprios sonhos. Dessa forma, se perpetua a desigualdade política de gênero. Enquanto os homens saem para trabalhar, muitas mulheres ainda continuam realizando o trabalho doméstico invisível e não-remunerado. Quando não, são abandonadas pelos seus parceiros e chefiam a família com subempregos. Mesmo quando trabalham fora, são pressionadas a assumir outras funções: mãe, dona de casa, esposa. Em todos os casos, falta tempo para elas e sobra obrigação com os outros.

Outro aspecto de fundamental importância é notar que a socialização feminina também é responsável por produzir, em nós, um medo de protagonizar nossas próprias vidas. Se estivermos sempre voltadas para o outro, esquecemos de desenvolver nossa capacidade de autonomia, nossa coragem de liderar e, ao mesmo tempo, de nos percebermos independentes, sem o medo de errar ou de sermos julgadas. Estar à frente, abrir caminho e ser referência para outras mulheres é romper com o que se espera de nós: subserviência e resignação

É necessário desconstruir toda essa crença de auto sacrifício e de eterna disponibilidade para ajudar todos. Enquanto as mulheres se entenderem como seres que auxiliam, ajudam e cuidam somente dos outros, elas se esquecerão de dedicar um tempo para si mesmas. O excesso de cuidado alheio pode significar a anulação e o apagamento do eu, a quem elas realmente deveriam priorizar. 

Na política, o cuidado voltado para nós mesmas e para outras mulheres pode significar desenvolvermos nosso potencial como protagonistas, concretizando mais candidaturas femininas, articulando redes de discussão e de debate sobre a desigualdade política de gênero e etc. Além disso, é importante organizar e conscientizar as eleitoras brasileiras sobre a importância de eleger mulheres comprometidas com nossas pautas. 

Todas essas mudanças são necessárias porque, mesmo eleitas, as mulheres continuarão encarando um ambiente político hostil e despreparado para lidar com a participação feminina nos diferentes âmbitos do poder. Para se ter uma ideia do que as mulheres eleitas enfrentam, o banheiro feminino do Senado Federal foi construído somente em 2015, após 55 anos da sua inauguração. Antes disso, apenas o banheiro masculino existia no plenário em questão. Além de uma estrutura nada comprometida com a igualdade, as parlamentares também enfrentam o que chamamos de violência política de gênero: silenciamento, xingamentos misóginos, interrupções de suas falas, ameaças e os mais diferentes tipos de abuso. 

Cuidar dessas mulheres também significa escutar e acolher as dificuldades de permanecer trabalhando em um lugar que parece ter aversão à igualdade de gênero. Formado majoritariamente por homens, os ambientes políticos no Brasil não estão preparados para a participação feminina, que é cada vez mais proeminente. Independente disso, temos conquistado mais espaço e a luta nos renderá mais frutos em cada nova eleição. Por isso, é essa dimensão do cuidado que devemos ampliar: o cuidado de nós para nós mesmas e de nós para com outras mulheres. Isso fortalece nossa luta e divide o fardo das adversidades pelo caminho. 

Sobre a autora: Priscila Sanches Nery Oliveira é mulher nortista, criadora de conteúdo, ativista feminista e psicóloga clínica com perspectiva de gênero. É graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Análise Existencial pela Faculdade Católica de Fortaleza, possui formação em Saúde Mental, Gênero e Sexualidade pelo Instituto NOSTRUM e é pós-graduanda em Psicoterapia On-line pela PUC-RS.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baixa representação política deixa mulheres fora do poder. Site da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Disponível em: https://www.almg.gov.br/acompanhe/noticias/arquivos/2022/03/16_direitos_mulher_representacao_politica

Como se proteger de tristeza, raiva e medo após eleição? BBC News. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63080203

DOWLING, Colette. Complexo de cinderela. Editora Melhoramentos. 2ª ed, 2012.

Mulheres no mercado da saúde. Blog Alice me disse. Disponível em: https://blog.alice.com.br/nossa-voz/mulheres-no-mercado-de-saude/

Na saúde, sim. Na doença, não. Pesquisa diz que as mulheres têm seis vezes mais chance de ser abandonadas pelos maridos quando estão doentes. O que os faz ir embora?. ISTOÉindependente. Disponível em: https://istoe.com.br/31664_NA+SAUDE+SIM+NA+DOENCA+NAO/

Im.pulsa

Plataforma aberta e gratuita para inspirar, treinar e conectar mulheres, auxiliando-as a superar desafios políticos e produzir campanhas vencedoras. Oferece formação política para mulheres por meio de produtos práticos com linguagem acessível e afetiva. A Im.pulsa é feita por e para mulheres.