Im.pulsa

Julho 20, 2022. Por Im.pulsa

Como fazer uma campanha com olhar interseccional?

Por Isadora Salomão 

Candidata, chegou a hora de pensar o programa da sua campanha!

Não basta ter uma equipe bacana, canais de comunicação engajados e uma gestão de recursos eficiente, é necessário um programa político forte para o cargo que deseja ocupar. E isso não é só para campanhas grandes e cheias de recursos. Todas podemos e devemos deixar muito evidente aos eleitores como enxergamos a política, como compreendemos o papel que desejamos ocupar e o que pretendemos com o nosso fazer político. 

Essa guia é pensada para te ajudar a criar seu programa a partir de um olhar interseccional. 

Ok, mas por quê pensar através das lentes da interseccionalidade? 

O que é interseccionalidade?

Primeiro precisamos entender a interseccionalidade. Esse termo veio do feminismo negro, é um conceito fundamental para os estudos de hoje em dia, e também para um fazer político mais ativista, pensando na ação de lideranças, movimentos e o conjunto da sociedade civil como um todo. Tem trazido luz e esperança ao modo de enxergar o futuro desses movimentos, na tentativa de recriar e repensar conceitos que tentam endurecer ou enquadrar os reconhecimentos que temos umas das outras. 

“A interseccionalidade investiga como as relações interseccionais de poder influenciam as relações sociais em sociedades marcadas pela diversidade, bem como as experiências individuais na vida cotidiana. Como ferramenta analítica, a interseccionalidade considera que as categorias de raça, classe, gênero, orientação sexual, nacionalidade, capacidade, etnia, faixa etária – entre outras – são inter-relacionadas e moldam-se mutuamente. A interseccionalidade é uma forma de entender e explicar a complexidade do mundo, das pessoas e das experiências humanas”.

Collins, Patrícia Hill; Bilge, Sirma. Tradução: Rane Souza. Interseccionalidade, 1ª Edição, São Paulo, Boitempo, 2021, p. 15-16

Uma candidatura não é só a candidata

A candidatura de uma mulher por si só já enfrenta um lugar social imposto pelas desigualdades políticas de gênero. Só que ela também é carregada de tantos outros elementos importantes a serem observados, inclusive muito mais do que vemos quando damos uma olhadela em uma candidatura de representatividade feminina. 

Que mulher é essa? Qual o peso das desigualdades de gênero, sociais e raciais que ela carrega? A quem ela representa? O que ela defende?

São muitas perguntas quando pensamos em uma campanha de mulher com o olhar interseccional. Para além do fato de sermos mulheres, somos todas diferentes e carregamos sobre nós tantas outras características, origens, referências e posições no mundo. Há mulheres trans, cis, mães, negras, brancas, pertencentes à povos originários, periféricas, gordas, magras, candomblecistas, de melhores idades, corporeidades, preferências e orientações sexuais distintas, com ou sem alguma especificidade física, sertanejas, urbanas, litoraneas, amazônidas, nordestinas, e por aí vai. 

Companheira, essas diferenças poderiam ser apenas características que nos tornam únicas, mas muitas delas são expostas como definidoras para justificar desigualdades e discriminações sobre nós. Diferentes características não nos fazem apenas ser quem somos, mas também nos colocam em diferentes espaços sociais, trazendo adversidades e obstáculos estruturais que afetam as nossas vidas diretamente. Dependendo da combinação dessas intersecções, a opressão e discriminação aparecem de maneira densa e por vezes até violenta.

Se esse olhar sobre a gente mesmo já traz esse tanto de complexidade, imagina como poderia ser o olhar da nossa campanha sobre as realidades a enfrentar?

Está aí o segundo passo!

Através do feminismo podemos reconhecer como é fundamental as trajetórias anti-racistas e anti-machistas percorridas pelas mulheres, e o apagamento que estas mulheres viveram. Lembrando que não é preciso ser mulher pra ser feminista, e não é preciso ser negra para ser antirracista.

Se você é uma candidata mulher, que compartilha ideais feministas e antirracistas, não faz sentido você elaborar um programa que não reflita uma perspectiva interseccional. É mais interessante ainda se você for mulher negra, LBTQIAP+, pertencente de povos originários, PCD. Para que a sua campanha ultrapasse as barreiras superficiais do empoderamento, e da representação do Ser Mulher, é necessário um olhar mais profundo para alcançar o que há de revolucionário e insurgente. 

No começo pode parecer difícil, mas com a prática do olhar interseccional presente em todos os aspectos da campanha (e da vida!) as coisas se tornarão possíveis. Veremos que não é só uma forma de enxergar as coisas por uma lente mais bacana, mas sim uma maneira de dar um maior sentido e tornar ainda mais potente, rica e transformadora a nossa luta enquanto mulheres.

Mas mana, não se preocupe. Vamos explicar direitinho como fazer.
Bota um cropped e reage!

O programa interseccional – começando do começo

O país, o estado e a cidade são espaços físicos da sociedade, caracterizados pelas relações de poder das mais diversas dimensões, que afetam a todas, todes e todos de maneira política, simbólica e material.

Simplificando, esse Brasil se apresenta a nós hoje da seguinte forma:

  • É espaço de manutenção da ORDEM e do CONTROLE do Estado e do Sistema;
  • O homem cis-hétero-branco é o indivíduo tido como supercapacitado. Em nosso sistema é ele quem tem garantido os maiores privilégios e a livre expressão de poder;
  • Essa sociedade é organizada, via de regra, de cima pra baixo. A maior parte da população está embaixo, produzindo riquezas para os 1% da população que está no topo da pirâmide;
  • É um espaço percebido e vivenciado de formas diferentes pelas pessoas, sejam pessoas cis, pessoas trans, pessoas com especificidades físicas, crianças, pessoas da melhor idade, negros, negras, indígenas, etc.;
  • Suas desigualdades se estruturam sobre os pilares de classe, raça e gênero. Não necessariamente nessa ordem;

No cotidiano brasileiro, raça e gênero separam e estruturam o povo de forma socioeconômica, simbólica e cultural.

No caso de uma pessoa possuir características que são discriminatórias, essas características infelizmente se combinam e geram um preconceito em torno de suas capacidades e poderes. Dito isso, a busca por uma sociedade mais justa deve respeitar a diversidade de corpos, vivências e necessidades.

Um programa de campanha que tenha visão interseccional necessariamente precisa ser um programa que QUESTIONE O MACHISMO, O RACISMO E AS DEMAIS FOBIAS SOCIAIS. Em nossa sociedade, o racismo, o capitalismo e o patriarcado são estruturas firmes e inseparáveis, que geram efeitos negativos na vida das pessoas como um todo. Na vida das minorias em especial.

Portanto, pensar nas intersecções impacta diretamente na elaboração de soluções para problemas coletivos, como as políticas públicas e as legislações. As políticas institucionais também precisam ser pensadas, pois, quando se discute problemas gerais, ao mesmo tempo se discutem problemas individuais. 

“A discriminação interseccional é particularmente difícil de ser identificada em contextos onde formas econômicas, culturais e sociais silenciosamente moldam o pano de fundo, de forma a colocar as mulheres em uma posição onde acabam sendo afetadas por outros sistemas de subordinação. Por ser tão comum, a ponto de parecer um fato da vida, natural ou pelo menos imutável, esse pano de fundo (estrutural) é, muitas vezes, invisível. O efeito disso é que somente o aspecto mais imediato da discriminação é percebido, enquanto que a estrutura que coloca as mulheres na posição de receber tal subordinação permanece obscurecida”. 

(CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o Encontro de Especialistas em Aspectos da Discriminação Racial Relativos ao Gênero. 2002, p. 176).

Até então tudo bem? Para começar a pensar no programa em si, é importante compreender o papel do cargo que você, mulher, irá disputar em 2022. 

Qual o papel do executivo? Qual o papel do legislativo? O que a candidata pode prometer dependendo do cargo ao qual está se candidatando? O que ela não pode prometer porque está fora da atuação do cargo? 

Os quadros abaixo explicam um pouco mais sobre as diferenças entre os cargos do executivo e legislativo, mas para além, procure mais informações sobre o cargo, o contexto do seu estado, sobre os principais problemas que sua candidatura pretende influenciar, dentre outras coisas.

EXECUTIVO LEGISLATIVO
O Poder Executivo é responsável pela administração do Estado. O Poder Legislativo é responsável pela criação das leis.
Representantes: 

  • Presidenta/e (nível federal)
  • Governadoras/es (nível estadual)
  • Prefeitas/os (nível municipal)
Representantes (parlamentares): 

  • Senadoras/es (nível federal)
  • Deputadas/os Federais (nível federal)
  • Deputadas/os Estaduais (nível estadual) e Deputadas/os Distritais (no caso do DF)
  • Vereadoras/es (nível municipal)
Papel:

Os representantes do Poder Executivo têm o papel de executar as políticas e ações para a solução de problemas relacionados à esfera de poder Federal, Estadual ou Municipal.

Devem buscar conciliar os interesses políticos e sociais existentes.

Têm direito de decisão sobre os rumos políticos e econômicos, interpretando e decidindo sobre a melhor forma gerir os interesses e os bens públicos.

Além disso, seu papel também é o de sancionar ou vetar novas leis, analisadas ou criadas pelo legislativo.

Papel: 

Os representantes do Poder Legislativo, chamados parlamentares, têm como papel elaborar projetos de lei, debater e posicionar-se politicamente, a fim de decidir sobre eles.

Têm também como função a fiscalização de todos os atos do Executivo, tendo em vista o uso adequado das leis e a conformidade com os interesses públicos. No caso de ter sido comprovado o descumprimento de leis, cabe ao Legislativo atuar para assegurar o cumprimento.

O que pode ou não prometer: 

A execução de novas obras e políticas.

Dizer onde e como o dinheiro será aplicado. Cada esfera, Federal, Estadual ou Municipal, se responsabiliza por políticas e obras próprias.

O que pode ou não prometer:

A depender da esfera do cargo, é possível a criação de leis sobre o funcionamento do país, estado ou cidade, mas não a execução de políticas como a construção de novas obras, por exemplo. 

Com essas informações mais gerais e quentinhas, vimos que no sistema político brasileiro há uma divisão de RESPONSABILIDADES em relação à elaboração e execução das políticas institucionais. Essa responsabilidade não limita as formas de cumprimento das tarefas de cada poder, que pode ser mais ou menos participativa, a depender de quem ocupa essas esferas. 

CICLO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
COM MENOS PARTICIPAÇÃO COM MAIS PARTICIPAÇÃO

Fonte: A própria autora.

Uma candidatura que traz o viés da interseccionalidade ao seu programa, precisa também da participação efetiva de indivíduos socialmente negligenciados. Portanto, um programa interseccional precisa ser construído JUNTO às pessoas e não somente PARA as pessoas.

Para uma sociedade mais justa, acessível e democrática, precisamos INCLUIR OS SUJEITOS e transformar a maneira como SE PLANEJA, EXECUTA e SE ACESSA AS POLÍTICAS PÚBLICAS. Olhar para como os serviços e a infraestrutura se complementam, deixando para trás a tendência de pensá-los de formas quadradas e separadas. Mulher, isso fortalece e muito a perspectiva interseccional.

Como propor saídas para superar o desemprego, sem considerar o número de mulheres desempregadas chefes de família? Como superar a quantidade de mulheres negras no trabalho informal? Ou o grande número de jovens periféricos no subemprego dos aplicativos de entrega? Como falar em saúde sem considerar a fome ou a falta de saneamento básico nas áreas mais vulneráveis? Como propor políticas contra a violência de gênero sem enxergar que o número de feminicídios tem crescido entre as mulheres negras em relação às mulheres brancas? Por meio de legislações e políticas públicas é super possível, estamos aqui para te ajudar nisso, companheira!

ENTÃO COMO GIRAR A CHAVE?

  • O primeiro passo é identificar os SUJEITOS políticos impactados pelo problema ou os que estão no centro dele;
  • Colaborar com a luta contra a criminalização dos movimentos sociais;
  • Atuar na defesa de direitos, avançar no direito de ser, e nas conquistas sociais e econômicas;
  • Inserir no centro do debate o caráter ESTRUTURANTE do racismo, e das desigualdades de gênero no Brasil. As minorias podem ser a maioria;
  • Construir estratégias que partam de uma perspectiva INTERSECCIONAL;

Buscar o que há de complexidade em cada eixo ou tema – como emprego, moradia, transporte, saúde, segurança e etc. Para um programa interseccional é necessário buscar ter uma escuta ativa àqueles e àquelas que são impactados diretamente pelo problema.

Animadas? Então, bora pensar nesse programa logo?

Como ter uma perspectiva interseccional nos diversos eixos da campanha?

Os Eixos de uma campanha normalmente são definidos a partir de:

  • quem é a candidata;
  • quem ela busca representar;
  • as causas que a candidatura tem mais intimidade, desejo e possibilidade de atuação;
  • os principais problemas coletivos institucionais a serem solucionados;

Por fim, os Eixos estão diretamente relacionados à identidade e a razão de ser dessa candidatura. A ideia é que a quantidade de Eixos de campanha não faça a candidatura perder ou dispersar a sua identidade. Muito pelo contrário. Eles são a orientação das propostas, sejam na disputa por cargos legislativos ou executivos.

Um programa interseccional enxerga as categorias de classe-raça-gênero, pensando a atuação como uma coisa só. Esses principais temas dialogam entre si e também estão relacionados.

EIXOS DE UM PROGRAMA
EXEMPLO 1 EXEMPLO 2
 

 

NÃO FAZER: caixinhas de combate às opressões.

 

 

FAZER: Agregar o olhar interseccional em todos os eixos.

Fonte: A própria autora.

E, como isso se dá, na prática? 

Vamos pensar em estratégias? Você já conhece as Oficinas Populares de Projetos de Lei?

São oficinas em que se convidam diversas pessoas  para facilitar os debates. Geralmente o debate é entre quatro pessoas, dentre elas lideranças comunitárias, representantes, pessoas impactadas pelas políticas existentes ou pela falta delas.

As oficinas são atividades abertas à participação e têm a previsão de acontecer em todo o período de campanha. Elas focam nas desigualdades sociais dando abertura para a inclusão, e são capazes de trazer resultados e propostas muito mais ricas e conectadas com a realidade.

Em uma oficina sobre o Eixo moradia, por exemplo, mulheres negras e mães, chefes de família, compartilharam as dificuldades de conseguir pagar aluguel, lidar com a falta de escolas, burocracias, problemas de infraestrutura e transportes. Representantes da liderança do movimento de travestis e transexuais, do interior do estado, acentuaram a falta de espaços de acolhimento e moradia para pessoas que são expulsas de suas casas por conta da sua identidade de gênero e/ou orientação sexual. Representantes da luta de populações de rua expuseram a falta de um olhar cuidadoso sobre essas populações e suas vulnerabilidades. Uma participante PCD compartilhou que, normalmente os projetos de habitação popular não pensam nesse público, os apartamentos não possuem acessibilidade. Propostas incríveis saem de Projetos de Lei, pensando a partir de todas essas perspectivas!

São tantos olhares diferentes sobre um mesmo tema e, para além disso, muitos temas se conectam entre si. Pois é, candidata, um programa interseccional precisa focar nisso. 

O impacto de cada política é perceptível, e a realidade é vivenciada de formas diferentes pelas pessoas. Gênero, raça e classe são mecanismos estruturantes e formativos do sistema, e as relações sociais são impactadas por isso.

Então, para girar a chave da elaboração de propostas de Governo e/ou Projetos de Lei, é preciso exercitar o OLHAR ATENTO, a ESCUTA ATIVA e pensar ESTRATÉGIAS CONTEXTUALIZADAS e conectadas com a vida de quem mais necessita destas políticas.

“Precisamos cultivar o bom senso para construir uma nova estética política na perspectiva de articular gênero, raça, classe e territórios populares para que a vida das pessoas seja colocada acima do lucro”.

(Marielle Franco, em “O golpe na perspectiva de gênero”, organizado pela professora Linda Rubim e pela jornalista Fernanda Argolo.)

Importante dizer que, ainda que exercitar o olhar interseccional possa parecer difícil ou distante, existem experiências governamentais da chamada NOVA AGENDA DAS DESIGUALDADES MÚLTIPLAS, em que isso não só é possível como já está em prática. Estão no centro do debate nessa nova agenda:

  • Oportunidades interseccionais de trabalho, como as voltadas para masculinidades trans, saúde da população periférica, trabalho de colaboração de limpeza em condições dignas, acesso à espaços urbanos, escolas e etc;
  • Real participação de personagens sociais, como os povos de matrizes africanas, populações transitórias, quilombolas e mulheres indígenas;
  • Possibilidades de gestão conjunta e organizada, sob a ótica das políticas inovadoras entre diferentes esferas governamentais, organizações da sociedade civil, empresas, movimentos sociais, e por aí vai.
  • Enfrentamento ao racismo e sexismo;

Para fazer de sua campanha um espaço real de transformação e uma candidatura forte, coerente e inovadora, que tal colocar essas lentes e fazer acontecer?

Vamos começar? 😉

Sobre a autora: Isadora Salomão é soteropolitana, feminista negra, defensora de Direitos Humanos e Relatora de DH da Plataforma DHESCA. Militante do PSOL, com atuação no Fórum Nacional Marielles, Levante de Mulheres Brasileiras, e na Coalizão Negra por Direitos. É Arquiteta & Urbanista e Mestra em Desenvolvimento e Gestão Social, ambas pela UFBA. Em 2018, foi a candidata mulher mais votada do PSOL Bahia à Deputada Estadual, alcançando a 2ª suplência. Também foi candidata à vereadora de Salvador em 2020.
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Plataforma online, aberta e gratuita para inspirar, treinar e conectar a próxima geração de mulheres líderes na América Latina, auxiliando-as a superar desafios e produzir campanhas políticas vencedoras. Oferece formação política para mulheres por meio de produtos práticos com linguagem acessível, afetiva, feita por e para mulheres.