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Como construir um movimento político para eleger ativistas?

Sobre a trilha

Essa Trilha foi elaborada a partir de trechos da cartilha da Bancada Ativista chamada "Como construir um movimento para eleger ativistas", que tem como objetivo apresentar a história de criação do movimento, suas estratégias e os aprendizados sobre as evoluções do projeto político durante o período de duas campanhas eleitorais (2016 e 2018) - e, quem sabe, inspirar o surgimento de mais movimentos eleitorais Brasil a dentro.

Fevereiro 23, 2021. Por Bancada Ativista

Convocando pessoas para um movimento político eleitoral

Um movimento político eleitoral pressupõe pessoas organizadas, na maioria dos casos de forma voluntária, com uma missão em comum. Quando se pensa em um movimento, o imaginário logo tende a ilustrar o mesmo com dezenas de pessoas divididas em grupos de trabalho de diferentes frentes, com uma proposta de gestão clara e uma diretriz óbvia a ser seguida por todos.

Porém, a realidade pode ser bem diferente dessa imagem. Na Bancada Ativista, por exemplo, o núcleo duro nunca teve mais do que 15 pessoas. Um movimento político eleitoral não precisa de dezenas de pessoas ativas o tempo inteiro: pode, tranquilamente, ser iniciado por grupo pequeno com uma visão mais ou menos alinhada sobre o que deseja construir, respaldado por um um grupo maior de apoiadores que oferecem contribuições mais pontuais ou ajudam a chancelar publicamente suas ações. 

Não existem perfis certos, mas a vontade de fazer algo acontecer e a necessidade de um pouco de pragmatismo para dar materialidade às aspirações prospectadas. Quando pessoas de perfis complementares se encontram, como visionários/sonhadores com realizadores/pragmáticos, costumam ser muito produtivas as relações. Visionários/sonhadores são aqueles que concebem novas ideias para o mundo, vivem fazendo leituras de contexto e buscam referências e inspirações em outros locais para trazer inovações ao seu contexto local. Já pragmáticos/realizadores são aqueles que transformam as visões em matéria, colocam propostas em movimento, conseguem traduzir as ideias projetadas em documentos palpáveis, canais de comunicação, materiais de apresentação e atividades presenciais.  

A conquista de mais pessoas costuma ser orgânica, quando os idealizadores apresentam suas ideias com paixão e sabem dialogar com gente que pode se interessar em participar. Também ajuda muito na mobilização quando a sua motivação é, acima de tudo, o impacto positivo de suas ações para o mundo, em vez de ser uma busca por ganhos individuais. Por isso, é muito importante contar para as pessoas sobre o processo em construção, ouvir ativamente opiniões de confiança e se mostrar aberto à entrada de novos integrantes. Um movimento formado por voluntários tende, inicialmente, a ser composto por um grupo de amigos ou amigos de amigos, pessoas que costumam se juntar mais facilmente em torno de uma visão comum.

Após a entrada de algumas pessoas, inicia-se o processo de organização em torno de uma estrutura de governança condizente com a realidade de cada um. E também é realizada a estruturação das frentes de ação ou dos grupos de trabalho. Assim, o movimento pode se expandir e agregar de forma mais produtiva novos integrantes. 

Estrutura de governança

A estrutura de governança é muito importante, mesmo que o movimento seja composto por poucas pessoas. Ela esclarece a forma como as decisões são tomadas e como as diretrizes são definidas. 

Não existe modelo ideal para um movimento. O que é importante é a conversa franca e a transparência entre os participantes, especialmente os mais ativos e presentes. Todos precisam estar conscientes da construção da qual fazem parte e, por consequência, de onde se encontram e do que se espera da sua participação.

A estrutura de governança da Bancada Ativista, hoje, está organizada dentro de um organograma nuclear, na seguinte estrutura:

Núcleo duro

Composto pelas pessoas que estão realmente dispostas a liderar o movimento. Isso inclui criar as estratégias, construir e acompanhar as frentes de ação, gerir os times, fazer articulações, participar de inúmeras reuniões, tomar decisões e, principalmente, comprar publicamente os êxitos e fracassos da construção

É quem vai carregar o piano da construção política e prática. Tem que ter tempo, motivação e alinhamento. 

É legal ter pessoas com um perfil pragmático nesse grupo, que ajudem a sistematizar e compartilhar as informações com os demais membros, de forma a gerar transparência, dando acesso às informações produzidas. 

Grupo expandido regular

Composto por pessoas que não têm disponibilidade para acompanhar todos os detalhes ou não querem participar das tomadas de decisões centrais, mas se envolvem na construção e execução da estratégia, bem como em decisões táticas e na implementação das áreas em que estão inseridas.

São comprometidas com a construção, têm disponibilidade frequente e previsível, e cumprem regularmente com as responsabilidades claras pactuadas pelo grupo.

Grupo expandido pontual

São pessoas com talentos específicos que fazem entregas pontuais ao movimento. Não participam de frentes de ação ou grupos de trabalho de forma regular, não tomam decisões estratégicas, mas aportam de alguma forma suas habilidades no processo por identificação com a causa. 

Os serviços possíveis são variados, como por exemplo: mediadores, designers, videomakers, cozinheiros, gestores de espaços socioculturais, estudiosos, fotógrafos, músicos, entre vários outros. 

Podem atuar de forma independente ou em grupos, sempre sob uma convocação do movimento, para ajudar em questões ou tarefas específicas na hora certa.

Grupo de chancela

Não participa de nenhuma tomada de decisão do movimento nem assume tarefas executivas, mas ajuda a dar legitimidade ao movimento.

Membros do grupo de chancela geralmente são chamados de influenciadores, vistos como referências pelo público geral ou por públicos específicos estratégicos em suas áreas de atuação. São as figuras públicas que atestam confiança ao movimento e, contribuem de forma qualificada, com a divulgação de suas atividades. Ao usarem as suas redes pessoais para falar do movimento ou aparecer em materiais e participar de atividades, agregam organicamente alcance, ressonância e relevância ao mesmo.

Importante lembrar que chanceladores não precisam ser pessoas populares, com redes gigantes. Podem ser influentes na sua cidade por uma razão ou tema específico, pela relevância de um trabalho local que executam ou já executaram, por alguma atividade que as tenham colocado em evidência. 

Não se prenda a grandes figuras, até porque, para uma boa campanha eleitoral, você precisa de redes diversas, o que pede mais integrantes, com perfis variados e conexões pulverizadas. Pense de forma ampla e veja quem são os influenciadores de pequenos grupos: grupos de pais, ativistas da luta local por acesso a água, lideranças de campanhas municipais, agricultores, artistas, grupos de terceira idade, mobilizadores do bairro etc.

Estrutura das frentes operacionais

As frentes operacionais são estruturas que se sobrepõe e se complementam à estrutura de governança. E podem ser compostas por pessoas que fazem parte dos diferentes grupos da estrutura de governança apresentada acima.

 Quem puxa as frentes operacionais, que também podem ser chamadas de grupos de trabalho, não precisa necessariamente ser especialista – basta ter disposição e energia para fazer a coisa andar. A vontade de uma pessoa de contribuir para uma frente, somada ao desejo de aprender, pode resultar em uma atuação melhor que a de profissionais ou técnicos com pouca disposição.

Cada frente operacional necessita de planejamento e um plano de ação que estejam muito claros a todos os envolvidos. As pessoas precisam estar conscientes dos objetivos, das tarefas, do seu papel e do papel dos demais envolvidos, para não haver confusão, competições desnecessárias, trabalhos dobrados ou atividades que caminhem em direções opostas. 

Aqui tampouco há um modelo padrão. Ao organizar seu movimento, vale pensar no que faz mais sentido para a sua estratégia. Como referência, apresentamos abaixo as frentes da Bancada Ativista: 

Frente de gestão geral

  • Organização geral 
  • Coordenação da formulação de identidade e propostas
  • Relatórios
  • Financeiro
  • Sistematização dos conteúdos produzidos
  • Relatorização

Frente de articulação

  • Mapeamento e diálogo com candidatos 
  • Conversas e articulação com partidos 
  • Conversas e articulação com outros movimentos e organizações da sociedade civil  
  • Pesquisa e análise da cena política: perfil local dos partidos, quantidade de votos necessários para eleição de candidatos por diferentes partidos, compartilhamento de leituras políticas com diferentes atores etc.

Frente jurídica

  • Pesquisa jurídica sobre os parâmetros legais de atuação do movimento
  • Atendimento e apoio jurídico aos candidatos apoiados durante a campanha eleitoral

Frente de comunicação e mobilização

  • Desenvolvimento da identidade visual 
  • Gestão de site e redes sociais 
  • Produção de conteúdo para os diferentes canais e em diferentes formatos
  • Relação com imprensa
  • Eventos e atividades de promoção das candidaturas 
  • Parcerias com mobilizadores
  • Planejamento de campanhas

Frente de voluntariado

  • Acolhimento e coordenação dos voluntários interessados no movimento
  • Criação de atividades de campanha eleitoral com os voluntários – online e presenciais
  • Presença e constância no diálogo para estímulo dos voluntários engajados

Processos decisórios e de criação

Essas são as formas adotadas para tomada de decisões ou para a consolidação de processos criativos. Existem diversas ferramentas e metodologias de gestão que podem ajudar em cada processo escolhido, que não serão apresentadas aqui. Facilitadores profissionais podem ajudar muito, tanto em processos pontuais quanto na gestão do movimento como um todo, já que geralmente possuem um repertório amplo de ferramentas para diferentes situações.

Seguem abaixo alguns exemplos:

Consenso

Consiste na busca por uma concordância entre todos os participantes de um grupo, a partir do diálogo e do convencimento de todos. Muitas vezes, isso pressupõe adaptações e arranjos na proposta inicial. Essa não é uma metodologia rápida para uma tomada de decisão. Porém, é a que garante uma maior participação e colaboração. Além disso, o processo de diálogo rumo ao consenso tende a gerar menos rupturas e mais sentimento de pertencimento, já que todos se sentem parte integrante de uma decisão. 

Importante dizer: o consenso funciona melhor em grupo menores e que gozam de confiança entre si. Para ser utilizado em grupos maiores, pode ser interessante ter a figura de um facilitador ou mediador ajudando a guiar a discussão. 

Esse modelo é utilizado dentro do núcleo duro da Bancada Ativista, no qual são tomadas as decisões de maior peso do movimento, e também em frentes operacionais.

Inteligência coletiva
É muito importante despertar a consciência dos participantes sobre a importância de saber perder: nem sempre é possível emplacar a sua visão ou a sua forma de fazer dentro de uma coletividade. Saber acatar o que o coletivo está propondo faz parte da inteligência coletiva, principalmente dentro de processos voluntários e sob estruturas não verticalizadas.

Votação

Consiste em tomar decisão por meio de votos, modelo em que a maioria decide. É uma metodologia democrática e que precisa estar explícita se for utilizada.

A Bancada Ativista não recomenda muito usar votação para resolver questões internas de um movimento, mesmo para grupos maiores, por incentivar a criação de subgrupos e de condutas tóxicas em busca de uma vitória nos votos. 

Para processos que clamem pela participação de pessoas de fora do movimento para validar uma hipótese, a votação pode servir como um modelo, como também pode ser realizada uma Consulta Aberta

Consultas abertas

Consiste em processos onde atores externos ao movimento são convidados para uma leitura de contexto ou para o compartilhamento da sua opinião pessoal. Podem ser realizadas individualmente (conversa entre um convidado e integrantes do movimento) ou com um grupo de convidados (especialistas em um tema reunidos para, juntos, consolidarem uma visão estratégica em torno de algo requerido pelo movimento). 

É muito importante os convidados saberem exatamente para o que estão sendo convidados, se é um processo consultivo ou deliberativo e o que está sendo solicitado. Isso possibilita que esses processos sejam realizados de forma profissional, mesmo que por voluntários, e que ninguém se sinta “utilizado” pelo movimento.

Existe também a possibilidade de realizar consultas abertas via enquetes, formulários e outras ferramentas online para a participação do público em geral. 

Colaboração ou cocriação

Consiste na participação ativa de todos os membros de um grupo no processo criativo de consolidação de uma proposta. É utilizado nas frentes operacionais para a criação de seus planos de ação: todos os participantes ativos daquele frente são convidados a trabalhar em cima de uma proposta comum. 

Pode ser realizada virtualmente, com ferramentas de trabalho colaborativas online, ou presencialmente, com ferramentas voltadas à coleta e organização de ideias.

Centralização

Consiste no respeito à estrutura de governança proposta pelo movimento. Em um movimento político, é necessária muito estratégia em todos os campos e frentes de ação. Por isso, entender, consultar e agir respeitando a estrutura proposta é uma forma muito eficiente de todos atuarem sintonizados e na mesma direção. 

CONFIRA A PUBLICAÇÃO COMPLETA DA BANCADA ATIVISTA:

BA Guia01

 

Bancada Ativista

Grupo de cidadãos da cidade de São Paulo com atuação em múltiplas causas sociais, econômicas, políticas e ambientais que se uniu para dar suporte a candidaturas ao legislativo, visando a oxigenação da câmara dos vereadores e o aprendizado coletivo.

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