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Uma campanha, um voluntariado, muito aprendizado

Por Tatiana Amorim

A pandemia estabeleceu um contexto muito duro pra todos nós, mas também nos fez encontrar novas soluções para problemas antigos. Há tempos, sentia vontade de me engajar em uma atividade voluntária, que pudesse realmente fazer a diferença para as pessoas e impacto nas causas que me são caras: educação, feminismo, diversidade, direitos humanos, sustentabilidade. Mas sempre esbarrava nas dificuldades do dia-a-dia, muitos afazeres, compromissos, filhos, trabalho… Tudo que aquilo que a gente acha que ocupa todo o nosso tempo – e ocupa mesmo, se a gente não decidir controlar a rotina, em vez de deixar que ela nos controle. E a pandemia nos trouxe a oportunidade de aprendermos a fazer tudo online! Foi quando me deparei com o movimento Vamos Juntas na Política, fundado pela deputada federal Tabata Amaral com o objetivo de incentivar a entrada de mais mulheres na política. O movimento abriu um programa de voluntariado, que se apresentou pra mim como a oportunidade perfeita de impactar o resultado das eleições de forma efetiva. O movimento selecionou candidatas, que se inscreveram por todo o Brasil, para receberem formação política, mentoria e o apoio dos voluntários. E assim conheci Luana. Luana Rayalla, 25 anos, mulher trans, pessoa com deficiência, negra, moradora do bairro do Sacramento, periferia de São Gonçalo, segundo maior município do Rio de Janeiro – candidata pela primeira vez para a Câmara dos Vereadores. 

A primeira coisa que me impactou muito foi ver que ela não tinha ninguém na equipe que não fosse voluntário. Ela não tinha recursos e continuou assim por toda a campanha, já que o partido não destinou para ela nenhuma parte do fundo eleitoral. Aquela equipe de voluntários me inspirou muito: vi que há pessoas, como eu e como a Luana, que acreditam que podem fazer alguma coisa e que todo impacto, mesmo pequeno, é importante. Assim como ela, que apesar de todas as adversidades, acredita que pode transformar um pouco a realidade da sua cidade, há milhares de pessoas – e isso me anima. E, como aprendi com a Luana, é nas cidades que a transformação começa. Se você quer transformar um país, tem que começar pelas cidades. 

Eu sou jornalista por formação e me voluntariei para trabalhar com criação conteúdo, que é a minha maior experiência. Mas a campanha da Luana precisava de alguém que pudesse coordenar toda a comunicação, ficando responsável não só pelos conteúdos, mas também pela estratégia de marketing digital, acompanhamento de indicadores e impulsionamentos, formação de redes pelo Whatsapp, site, Youtube, enfim, tudo. E não tinha mais ninguém na equipe com experiência em comunicação, então, eu aceitei o desafio! Como coordenadora de comunicação, trabalhei em dupla com a Carol, também voluntária, uma jovem que manja muito de design e salvou muito a campanha. 

Como eu precisava de formação, procurei conteúdos que pudessem me ajudar em tudo que me faltava – e foi aí que conheci a Im.pulsa. Assisti a vários vídeos, aprendi muita coisa e apliquei a maior parte. Além dos vídeos da Im.pulsa, fiz alguns cursos de marketing eleitoral, comunicação política para as redes e coordenação política de campanha. Eu me sentia preparada para contribuir muito, mas eu não podia me dedicar o tempo que eu queria e que era realmente necessário, então, fiz tudo que podia. Assim como os outros membros da equipe, eu me desdobrava entre o trabalho, a família e a campanha e tentava fazer o melhor possível. 

Começamos a trabalhar juntos em junho e, ao longo desses cinco meses de campanha, aprendi muito, não só sobre campanhas políticas mas sobre pessoas e sobre o que uma equipe unida por um propósito é capaz de fazer. Além disso, outro ganho inestimável foi o auto-conhecimento. Eu me descobri de várias formas e posso dizer que essa experiência agregou um valor enorme pra mim, não só do ponto de vista profissional, mas principalmente, pessoal. Compartilho com vocês alguns desses aprendizados e descobertas.

O compromisso do voluntariado

Apesar do medo de falhar, das dúvidas, das dificuldades do dia-a-dia, eu não podia desistir. Aquelas pessoas, assim como eu, estavam engajadas com uma causa, a equipe confiou em mim para aquele trabalho. Como em qualquer trabalho em equipe, as pessoas dependiam uma das outras, mas, naquele time enxuto, isso era ainda mais grave – o trabalho dependia do compromisso de todos para não ir por água abaixo, pois se alguém saísse, não teria ninguém para substituir. E essa noção de responsabilidade foi crescendo e se mostrou mais necessária a cada dia. 

A força do propósito 

Ver que aquela equipe era formada por outras pessoas movidas pelo mesmo propósito que eu me trouxe uma força enorme. Todos eram voluntários como eu e não tinham nada a ganhar, além de conseguir transformar a sociedade. Foi por esse propósito que eu aceitei uma função que nunca tinha desempenhado antes – a motivação é muito forte, vem de dentro e te empodera. Quando a gente fala de propósito, a segurança de que vamos conseguir é muito maior.  

O poder da autoestima

Ao me ver ali, naquele time que precisava de mim, eu tive que me olhar de uma forma mais generosa e reconhecer o meu valor. Eu tive que acreditar em mim mesma e valorizar o conhecimento que eu podia aportar para que a gente conseguisse atingir o nosso objetivo. Eu tive que moldar o meu olhar, de forma que me visse como uma pessoa importante, capaz de fazer a diferença. Eu não tinha outra saída a não ser valorizar as minhas próprias qualidades e isso me fortaleceu e me impulsionou muito.

Autoaceitação, autoempatia 

“Não deu pra fazer tudo que eu planejei, tudo bem” – esse foi meu mantra durante os cinco meses de campanha. Eu estava fazendo tudo que podia e tive que aprender a me perdoar, em vez de me culpar por não ser perfeita. A gente tem que aprender a reconhecer nossos próprios esforços e a valorizá-los. Precisamos entender que quando não dá, sempre podemos optar por outro caminho e recomeçar, mas é importante darmos valor à nossa tentativa e estarmos seguras de que não tem problema falhar de vez em quando. 

Resiliência 

Não deu certo, não desiste: faz diferente, mas faz. É testar e reinventar o tempo todo. Fizemos um plano de trabalho, que depois não se confirmou, mudamos a forma de fazer e tudo bem, o importante é seguir em frente. Os problemas do dia-a-dia não podem nos impedir de continuar, o objetivo é concluir a missão, da forma que for possível. 

Pequenos gestos fazem diferença, nós temos um impacto mais forte do que pensamos

Tudo que pudermos fazer em favor de uma causa deve ser feito, mesmo que a gente pense que é pouco. Na nossa equipe de campanha, todos tinham outros compromissos, ninguém podia se dedicar 100% àquele trabalho, mas todos acreditamos que o que estávamos oferecendo seria importante e faria diferença. E fez.  

Tudo isso me deixou mais segura de que eu realmente podia ajudar – e me deu mais gás pra saber que posso ajudar ainda mais. Aprendi muito com as pessoas, aprendemos todos uns com os outros. E conheci toda uma rede de movimentos e organizações, construídas por pessoas como eu, que acreditam na força do coletivo. E toda essa experiência me deixou mais ciente de que, apesar de as eleições terem passado, o nosso trabalho continua. Vamos em frente, temos uma sociedade inteira para transformar!

 

Tati Amorim, jornalista, feminista, mãe da Maria e do João, é especialista em comunicação para as redes e mentorada Base.lab para coordenação de campanhas progressitas.

 

**Os textos e artigos publicados com assinatura no nosso blog não traduzem, necessariamente, a opinião de Im.pulsa. São redigidos por parceiras ou pessoas interessadas que encaminham tais conteúdos para avaliação e a publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre a representatividade e participação de mais mulheres na política.

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